
escrevo sobre um último suspiro
registro o espetáculo do fim
capturo os últimos gestos
a inocência e o seu desfecho
de mãos abertas, como quem segura sua própria infância pelas mãos
mas como se não reconhecesse o significado daquilo
sem cuidado, sem olhá-la nos olhos
redijo um amontoado de palavras
escolho as que melhor impactam, como um faz de conta que aconteceu
inalo o ar que a cena deixa, como se a olhasse com outra parte do corpo
ainda sinto a marca que ela deixou, histórias inteiras
deixando-me sem ar, com um nó entalado na garganta
como se quem partiu quisesse falar através de mim
sinto o cheiro do enxofre vindo da redação
o editorial esconde o ceifador, como quem mascara a verdade
sujando a matéria de sangue
mantenho-me consciente, mas também tenho as mãos sujas
o texto leva a minha assinatura
normalizo a barbárie
visto o meu melhor terno
uso a melhor caneta, no melhor pedaço de papel que encontrei
rabisco e censuro o profundo, rasgo certas camadas e deixo tudo em preto e branco
arranco os versos importantes da cena
do resto que sobra faço notícia
poesia com a morte
Deixe um comentário