tem horas que me encontro
no carro
criança
olhando a lua
esperando algo acontecer
Autor: gabrielclaudinomarinho@gmail.com
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aracnometa
no limiar do medo vivo a imensidão
por entre as dobras da escuridão
carrego o último beijo que deime escondo de uma aranha
assim como ela se esconde
de mimdo canto escuro da parede enxergo a vida
faço cama para a morte
deslizo pelo tecido orbicular da noite
me guio pelo som do seu fimdurante a madrugada tudo é breve
se tornando uma questão:
quem procura mais a vida
que o outro?fecho os olhos
esperando
que eu desperte sendo
uma aranha -
reflito no meu corpo torto
reflito no meu corpo torto
todo o reflexo de um tempo
outro
longe daquivi muitos planos serem feitos
na mão da mãe virei promessa e cuidado
na mão do pai virei besteira e estrago
um utensílio baratoguardei restos de pele
restos de água morna
gotas de sangue
um pouco de tudo cabe aquivi o menino nascer e crescer
vi casas, vi banheiros
choros na frente do espelho
vi angústia, pulsão de morte sobre veias desejando a morteme tornei amuleto
vi um novo ser surgindo de um novo corte
com a sorte de um corte cego na vertical norte
vi se manter forte um laço entre o que ainda é presente posse e o que foi passado
descartado distante daquime tornei objeto sagrado
sem ponta faço furo no futuro traçado
saindo de um balcão de loja fadado ao fim
não esqueço o passado e permaneço presente em mim -
11 de Junho
um vão entre mim e uma cadeira vazia
giro a ponta do lápis por entre os dedos
puxo a gola pelas mãos
tento não sufocarmeu caderno combina com a calça
escrevo a lápis
mastigo qualquer certeza
regurgito uma outra coisavisto meio sorriso
aceito a palavra penetrando
minha espinha circular -
poesia com a morte

escrevo sobre um último suspiro
registro o espetáculo do fim
capturo os últimos gestos
a inocência e o seu desfecho
de mãos abertas, como quem segura sua própria infância pelas mãos
mas como se não reconhecesse o significado daquilo
sem cuidado, sem olhá-la nos olhosredijo um amontoado de palavras
escolho as que melhor impactam, como um faz de conta que aconteceu
inalo o ar que a cena deixa, como se a olhasse com outra parte do corpo
ainda sinto a marca que ela deixou, histórias inteiras
deixando-me sem ar, com um nó entalado na garganta
como se quem partiu quisesse falar através de mimsinto o cheiro do enxofre vindo da redação
o editorial esconde o ceifador, como quem mascara a verdade
sujando a matéria de sangue
mantenho-me consciente, mas também tenho as mãos sujas
o texto leva a minha assinaturanormalizo a barbárie
visto o meu melhor terno
uso a melhor caneta, no melhor pedaço de papel que encontrei
rabisco e censuro o profundo, rasgo certas camadas e deixo tudo em preto e branco
arranco os versos importantes da cena
do resto que sobra faço notícia
poesia com a morte -
não sei explicar

acordei atordoado
sonhei com você a noite inteira
com o beijo que não demos
nem na porta do bar
nem no espaço escuro de quando fecho os olhosa palpitação continua
fico ofegante
pensando nos seus grandes olhos
me desnudando
seu sorriso abrindo o caminho nesse corredor estreito
só vejo você nessa multidão
seu cheiro me acalmando quando me aperta
quando me pede pra ficar
até esqueço o que é o não
as portas se abrem
todas as possibilidades
faço altar pra ilusãoe esse aperto no meu peito
do que eu deixei de fazer
do que eu queria
do que não consegui
do que não pude
do déjà-vu na sua vozmas se dói
ainda estou vivo -
alegria
preciso pegá-la antes que me escape
preciso colocá-la em um potinho
guardá-la no fundo do armárioimóvel no meio da rua pausando o tempo
parar na frente do espelho tentando entender o diferente
parar no portão de casa, com cautela ao dar o primeiro passo
caso não queira entrar comigose deixar levar pelo vento tocando o meu rosto
abraçar o frio nas mãos, que contorna os meus dedos quentes
no meu respiro, controlado mas intenso
nos meus passos, curtos e precisos
no sinal, verde para mimpreciso de uma testemunha
para que não digam que eu inventei
preciso de um registro
para que eu não pense que eu inventei
este momento raro que me toma crescente
essa alegria -
M.2

dizer sem dizer
dizer meias palavras
palavras ambíguas
não dizer
o silêncioconfundir
deixar tudo dito pelo não dito
deixar para interpretação
desmentir, afirmar a desilusãoser uma eterna lembrança
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do pertencimento
I
não caibo neste lar apertado
me encolho por entre os espaços estreitos
uma caixa na gaveta e um vão no guarda-roupa
por onde eu olho enxergo itens diversos, dos quais nenhum tem meu nomehoje tentei tomar banho
não encontrei um lugar para apoiar meu cansaço embaixo do chuveiro
de olhos fechados, tateio procurando um sabonete
só encontrei xampus que não me servem mais
saio pingando, demoro para chegar ao quarto
de repente a casa parecia muito grande
e ainda assim não me cabiaII
de madrugada, depois de muito insistir, fechei os olhos
me segurei com afinco na ponta da cama, ou o que restara dela
procurei algum aconchego em uma coberta antiga, restos de outra vida
tentei caber dentro de mim
fiz mantra das imagens que se formaram
fiz uma oração ao tempo
pedi que não amanhecesse mais um dia
pedi que mais um dia coubesse na minha noite
