Categoria: textos

  • título provisório

    quero desmontar a língua
    dissolver debaixo dela
    tudo que eu sinto
    fazer das palavras um feitiço
    dominar o mito
    desfazer o labirinto

    deitar em cama feita
    com um corpo vazio
    certo de que não deixei nada
    certo de que não há mais o que ser dito
    sem dúvidas de que só resta o descanso
    o silêncio absoluto
    perpétuo, infinito

  • ambivalência

    quando há o encontro das correntezas
    contra uma pedra
    fincada no chão

    imóvel

    definhando
    descascando aos poucos

  • olho no olho

    te olhei profundamente
    como se desejasse
    que os olhos falassem por mim

    permaneci em silêncio

    abri a janela
    vi as promessas
    se desmanchando no ar

  • pedal perdido sob os pés

    me seguro em gestos pequenos
    do sétimo andar de um prédio
    na avenida brigadeiro luís antônio

    basta um sopro
    mas um gole d’água
    basta um grito
    mas um suspiro

    são sempre coisas simples
    que seguram
    as asas de um pássaro
    coladas ao corpo

  • ser levado

    tem horas que me encontro
    no carro
    criança
    olhando a lua
    esperando algo acontecer

  • aracnometa

    no limiar do medo vivo a imensidão
    por entre as dobras da escuridão
    carrego o último beijo que dei

    me escondo de uma aranha
    assim como ela se esconde
    de mim

    do canto escuro da parede enxergo a vida
    faço cama para a morte
    deslizo pelo tecido orbicular da noite
    me guio pelo som do seu fim

    durante a madrugada tudo é breve
    se tornando uma questão:
    quem procura mais a vida
    que o outro?

    fecho os olhos
    esperando
    que eu desperte sendo
    uma aranha

  • reflito no meu corpo torto

    reflito no meu corpo torto
    todo o reflexo de um tempo
    outro
    longe daqui

    vi muitos planos serem feitos
    na mão da mãe virei promessa e cuidado
    na mão do pai virei besteira e estrago
    um utensílio barato

    guardei restos de pele
    restos de água morna
    gotas de sangue
    um pouco de tudo cabe aqui

    vi o menino nascer e crescer
    vi casas, vi banheiros
    choros na frente do espelho
    vi angústia, pulsão de morte sobre veias desejando a morte

    me tornei amuleto
    vi um novo ser surgindo de um novo corte
    com a sorte de um corte cego na vertical norte
    vi se manter forte um laço entre o que ainda é presente posse e o que foi passado
    descartado distante daqui

    me tornei objeto sagrado
    sem ponta faço furo no futuro traçado
    saindo de um balcão de loja fadado ao fim
    não esqueço o passado e permaneço presente em mim

  • 11 de Junho

    um vão entre mim e uma cadeira vazia
    giro a ponta do lápis por entre os dedos
    puxo a gola pelas mãos
    tento não sufocar

    meu caderno combina com a calça
    escrevo a lápis
    mastigo qualquer certeza
    regurgito uma outra coisa

    visto meio sorriso
    aceito a palavra penetrando
    minha espinha circular

  • poesia com a morte

    happy family in disney

    escrevo sobre um último suspiro
    registro o espetáculo do fim
    capturo os últimos gestos
    a inocência e o seu desfecho
    de mãos abertas, como quem segura sua própria infância pelas mãos
    mas como se não reconhecesse o significado daquilo
    sem cuidado, sem olhá-la nos olhos

    redijo um amontoado de palavras
    escolho as que melhor impactam, como um faz de conta que aconteceu
    inalo o ar que a cena deixa, como se a olhasse com outra parte do corpo
    ainda sinto a marca que ela deixou, histórias inteiras
    deixando-me sem ar, com um nó entalado na garganta
    como se quem partiu quisesse falar através de mim

    sinto o cheiro do enxofre vindo da redação
    o editorial esconde o ceifador, como quem mascara a verdade
    sujando a matéria de sangue
    mantenho-me consciente, mas também tenho as mãos sujas
    o texto leva a minha assinatura

    normalizo a barbárie
    visto o meu melhor terno
    uso a melhor caneta, no melhor pedaço de papel que encontrei
    rabisco e censuro o profundo, rasgo certas camadas e deixo tudo em preto e branco
    arranco os versos importantes da cena
    do resto que sobra faço notícia
    poesia com a morte

  • não sei explicar

    acordei atordoado
    sonhei com você a noite inteira
    com o beijo que não demos
    nem na porta do bar
    nem no espaço escuro de quando fecho os olhos

    a palpitação continua
    fico ofegante
    pensando nos seus grandes olhos
    me desnudando
    seu sorriso abrindo o caminho nesse corredor estreito
    só vejo você nessa multidão
    seu cheiro me acalmando quando me aperta
    quando me pede pra ficar
    até esqueço o que é o não
    as portas se abrem
    todas as possibilidades
    faço altar pra ilusão

    e esse aperto no meu peito
    do que eu deixei de fazer
    do que eu queria
    do que não consegui
    do que não pude
    do déjà-vu na sua voz

    mas se dói
    ainda estou vivo