Categoria: clipe2026

  • reflito no meu corpo torto

    reflito no meu corpo torto
    todo o reflexo de um tempo
    outro
    longe daqui

    vi muitos planos serem feitos
    na mão da mãe virei promessa e cuidado
    na mão do pai virei besteira e estrago
    um utensílio barato

    guardei restos de pele
    restos de água morna
    gotas de sangue
    um pouco de tudo cabe aqui

    vi o menino nascer e crescer
    vi casas, vi banheiros
    choros na frente do espelho
    vi angústia, pulsão de morte sobre veias desejando a morte

    me tornei amuleto
    vi um novo ser surgindo de um novo corte
    com a sorte de um corte cego na vertical norte
    vi se manter forte um laço entre o que ainda é presente posse e o que foi passado
    descartado distante daqui

    me tornei objeto sagrado
    sem ponta faço furo no futuro traçado
    saindo de um balcão de loja fadado ao fim
    não esqueço o passado e permaneço presente em mim

  • poesia com a morte

    happy family in disney

    escrevo sobre um último suspiro
    registro o espetáculo do fim
    capturo os últimos gestos
    a inocência e o seu desfecho
    de mãos abertas, como quem segura sua própria infância pelas mãos
    mas como se não reconhecesse o significado daquilo
    sem cuidado, sem olhá-la nos olhos

    redijo um amontoado de palavras
    escolho as que melhor impactam, como um faz de conta que aconteceu
    inalo o ar que a cena deixa, como se a olhasse com outra parte do corpo
    ainda sinto a marca que ela deixou, histórias inteiras
    deixando-me sem ar, com um nó entalado na garganta
    como se quem partiu quisesse falar através de mim

    sinto o cheiro do enxofre vindo da redação
    o editorial esconde o ceifador, como quem mascara a verdade
    sujando a matéria de sangue
    mantenho-me consciente, mas também tenho as mãos sujas
    o texto leva a minha assinatura

    normalizo a barbárie
    visto o meu melhor terno
    uso a melhor caneta, no melhor pedaço de papel que encontrei
    rabisco e censuro o profundo, rasgo certas camadas e deixo tudo em preto e branco
    arranco os versos importantes da cena
    do resto que sobra faço notícia
    poesia com a morte

  • Não estou à venda, mas aberta para visitas

    Não estou à venda, mas aberta para visitas. Tenho um chão de madeira onde muitos pisaram.

    Ainda guardo cinzas de incenso no rodapé e por entre as frestas do taco; indícios de que fui abrigo de sonhos, desejos, do fim e do cansaço. Tenho em mim plantas, abrigando vidas, vindas, lembranças, partidas: dentro e fora do vaso.

    Guardo histórias inteiras em diversos formatos: livros, anotações, fotografias. Nos calçados virados para cima — com cadarço, sem, inteiros, desgastados. Em partes sem tinta em cantos escondidos, nas rachaduras do teto: cicatrizes do tempo.

    Da vista vejo o mundo acontecer lá fora, aqui dentro também. Vejo reencontros, amizades inteiras se formando, amantes trocando afeto. Vejo nascer o desafeto, pessoas se tornarem completos estranhos. Vejo uma festa passar, vejo a despedida. Vejo alguém sozinho no escuro me olhando — aqui dentro também.