Textos, fotos, desenhos e o nada

  • M.2

    dizer sem dizer
    dizer meias palavras
    palavras ambíguas
    não dizer
    o silêncio

    confundir
    deixar tudo dito pelo não dito
    deixar para interpretação
    desmentir, afirmar a desilusão

    ser uma eterna lembrança

  • do pertencimento

    I

    não caibo neste lar apertado
    me encolho por entre os espaços estreitos
    uma caixa na gaveta e um vão no guarda-roupa
    por onde eu olho enxergo itens diversos, dos quais nenhum tem meu nome

    hoje tentei tomar banho
    não encontrei um lugar para apoiar meu cansaço embaixo do chuveiro
    de olhos fechados, tateio procurando um sabonete
    só encontrei xampus que não me servem mais
    saio pingando, demoro para chegar ao quarto
    de repente a casa parecia muito grande
    e ainda assim não me cabia

    II

    de madrugada, depois de muito insistir, fechei os olhos
    me segurei com afinco na ponta da cama, ou o que restara dela
    procurei algum aconchego em uma coberta antiga, restos de outra vida
    tentei caber dentro de mim
    fiz mantra das imagens que se formaram
    fiz uma oração ao tempo
    pedi que não amanhecesse mais um dia
    pedi que mais um dia coubesse na minha noite

  • tento me manter fiel a mim mesmo

    um rosto querido virou estranho na multidão
    de repente o que foi vivido não foi e faz parte da minha imaginação
    me torno um nome vazio de significado
    um vulto em uma festa
    onde tentamos nos cruzar em caminhos diferentes da sala de estar
    e os nossos olhares não se encontram nem quando trocamos gentilezas
    muito menos no toque frio da despedida

    procuro a identidade, como quem se esquecera quem é
    vou ao banheiro buscando refúgio, algum conselho no reflexo
    algo que diminuísse a dor
    respiro fundo, alterno o ar com as gotas que caem da pia
    por fim, abro a porta
    finjo costume, visto normalidade
    me apego ao chão sob os meus pés
    tento me manter fiel a mim mesmo

  • Não estou à venda, mas aberta para visitas

    Não estou à venda, mas aberta para visitas. Tenho um chão de madeira onde muitos pisaram.

    Ainda guardo cinzas de incenso no rodapé e por entre as frestas do taco; indícios de que fui abrigo de sonhos, desejos, do fim e do cansaço. Tenho em mim plantas, abrigando vidas, vindas, lembranças, partidas: dentro e fora do vaso.

    Guardo histórias inteiras em diversos formatos: livros, anotações, fotografias. Nos calçados virados para cima — com cadarço, sem, inteiros, desgastados. Em partes sem tinta em cantos escondidos, nas rachaduras do teto: cicatrizes do tempo.

    Da vista vejo o mundo acontecer lá fora, aqui dentro também. Vejo reencontros, amizades inteiras se formando, amantes trocando afeto. Vejo nascer o desafeto, pessoas se tornarem completos estranhos. Vejo uma festa passar, vejo a despedida. Vejo alguém sozinho no escuro me olhando — aqui dentro também.

  • tento sentir um gosto que não conheço

    deixei que me roubasse o fôlego
    num olhar singelo

    fico a sós com meus desejos, também sinceros

    extraiu formas do teu nome
    na ponta da língua
    contornando meus dentes

    tento sentir um gosto que não conheço
    de lábios que falam de Yoko Ono e de Emily Dickinson
    engulo o que juntara no céu da boca

    me contento?

  • recusar a perfeição

    recusar a perfeição
    ser gentil com as minhas falhas
    entender que existir não é um erro

    aceitar que o som da minha voz não chega a todos os ouvidos
    que repito a fala, mas na segunda vez ela já não sai inteira
    entender que ainda assim não devo calar quando meu coração pede a palavra

    aceitar uma troca profunda de olhares
    mesmo que, quando procurar novamente aqueles mesmos olhos, me depare com eles já fechados para mim

    chegar bem perto e errar a hora do abraço
    dar as costas constrangido, como quem erra a sala de aula e senta sem entender o que é dito

    ir embora sem jeito
    deixando dúvidas se sequer eu fui
    ser lembrado pelo meu nome
    deixado na lista de presença

    esquecer qualquer apego à imagem
    cruzar por espelhos sem encará-los
    como quem não reconheceria o reflexo se o visse

  • meus sentidos se perdem e volto a trair a mim mesmo

    adoro pôr tudo em caixinhas
    desde as roupas sujas
    dos versos descartados
    dos restos não falados
    até minhas relações

    quando algo foge de onde eu deixei
    um amontoado de sentimentos me toma
    perco a atenção e aquilo vira uma obsessão
    perco o chão e a noção das coisas
    meus sentidos se perdem
    e volto a trair a mim mesmo

  • descrever algo que não tem nome

    durmo e ainda tenho sono
    como e ainda tenho fome
    fecho os olhos e ainda vejo
    no silêncio ainda escuto tudo

    busco uma palavra não usada pra chamar de minha
    que consiga descrever algo que não tem nome
    algo que todo dia pergunta por mim

  • tocar uma ideia

    há dias em que é mais fácil tocar uma ideia do que uma parede