quero desmontar a língua dissolver debaixo dela tudo que eu sinto fazer das palavras um feitiço dominar o mito desfazer o labirinto
deitar em cama feita com um corpo vazio certo de que não deixei nada certo de que não há mais o que ser dito sem dúvidas de que só resta o descanso o silêncio absoluto perpétuo, infinito
reflito no meu corpo torto todo o reflexo de um tempo outro longe daqui
vi muitos planos serem feitos na mão da mãe virei promessa e cuidado na mão do pai virei besteira e estrago um utensílio barato
guardei restos de pele restos de água morna gotas de sangue um pouco de tudo cabe aqui
vi o menino nascer e crescer vi casas, vi banheiros choros na frente do espelho vi angústia, pulsão de morte sobre veias desejando a morte
me tornei amuleto vi um novo ser surgindo de um novo corte com a sorte de um corte cego na vertical norte vi se manter forte um laço entre o que ainda é presente posse e o que foi passado descartado distante daqui
me tornei objeto sagrado sem ponta faço furo no futuro traçado saindo de um balcão de loja fadado ao fim não esqueço o passado e permaneço presente em mim
escrevo sobre um último suspiro registro o espetáculo do fim capturo os últimos gestos a inocência e o seu desfecho de mãos abertas, como quem segura sua própria infância pelas mãos mas como se não reconhecesse o significado daquilo sem cuidado, sem olhá-la nos olhos
redijo um amontoado de palavras escolho as que melhor impactam, como um faz de conta que aconteceu inalo o ar que a cena deixa, como se a olhasse com outra parte do corpo ainda sinto a marca que ela deixou, histórias inteiras deixando-me sem ar, com um nó entalado na garganta como se quem partiu quisesse falar através de mim
sinto o cheiro do enxofre vindo da redação o editorial esconde o ceifador, como quem mascara a verdade sujando a matéria de sangue mantenho-me consciente, mas também tenho as mãos sujas o texto leva a minha assinatura
normalizo a barbárie visto o meu melhor terno uso a melhor caneta, no melhor pedaço de papel que encontrei rabisco e censuro o profundo, rasgo certas camadas e deixo tudo em preto e branco arranco os versos importantes da cena do resto que sobra faço notícia poesia com a morte
acordei atordoado sonhei com você a noite inteira com o beijo que não demos nem na porta do bar nem no espaço escuro de quando fecho os olhos
a palpitação continua fico ofegante pensando nos seus grandes olhos me desnudando seu sorriso abrindo o caminho nesse corredor estreito só vejo você nessa multidão seu cheiro me acalmando quando me aperta quando me pede pra ficar até esqueço o que é o não as portas se abrem todas as possibilidades faço altar pra ilusão
e esse aperto no meu peito do que eu deixei de fazer do que eu queria do que não consegui do que não pude do déjà-vu na sua voz