Textos, fotos, desenhos e o nada

  • ser levado

    tem horas que me encontro
    no carro
    criança
    olhando a lua
    esperando algo acontecer

  • aracnometa

    no limiar do medo vivo a imensidão
    por entre as dobras da escuridão
    carrego o último beijo que dei

    me escondo de uma aranha
    assim como ela se esconde
    de mim

    do canto escuro da parede enxergo a vida
    faço cama para a morte
    deslizo pelo tecido orbicular da noite
    me guio pelo som do seu fim

    durante a madrugada tudo é breve
    se tornando uma questão:
    quem procura mais a vida
    que o outro?

    fecho os olhos
    esperando
    que eu desperte sendo
    uma aranha

  • reflito no meu corpo torto

    reflito no meu corpo torto
    todo o reflexo de um tempo
    outro
    longe daqui

    vi muitos planos serem feitos
    na mão da mãe virei promessa e cuidado
    na mão do pai virei besteira e estrago
    um utensílio barato

    guardei restos de pele
    restos de água morna
    gotas de sangue
    um pouco de tudo cabe aqui

    vi o menino nascer e crescer
    vi casas, vi banheiros
    choros na frente do espelho
    vi angústia, pulsão de morte sobre veias desejando a morte

    me tornei amuleto
    vi um novo ser surgindo de um novo corte
    com a sorte de um corte cego na vertical norte
    vi se manter forte um laço entre o que ainda é presente posse e o que foi passado
    descartado distante daqui

    me tornei objeto sagrado
    sem ponta faço furo no futuro traçado
    saindo de um balcão de loja fadado ao fim
    não esqueço o passado e permaneço presente em mim

  • 11 de Junho

    um vão entre mim e uma cadeira vazia
    giro a ponta do lápis por entre os dedos
    puxo a gola pelas mãos
    tento não sufocar

    meu caderno combina com a calça
    escrevo a lápis
    mastigo qualquer certeza
    regurgito uma outra coisa

    visto meio sorriso
    aceito a palavra penetrando
    minha espinha circular

  • poesia com a morte

    happy family in disney

    escrevo sobre um último suspiro
    registro o espetáculo do fim
    capturo os últimos gestos
    a inocência e o seu desfecho
    de mãos abertas, como quem segura sua própria infância pelas mãos
    mas como se não reconhecesse o significado daquilo
    sem cuidado, sem olhá-la nos olhos

    redijo um amontoado de palavras
    escolho as que melhor impactam, como um faz de conta que aconteceu
    inalo o ar que a cena deixa, como se a olhasse com outra parte do corpo
    ainda sinto a marca que ela deixou, histórias inteiras
    deixando-me sem ar, com um nó entalado na garganta
    como se quem partiu quisesse falar através de mim

    sinto o cheiro do enxofre vindo da redação
    o editorial esconde o ceifador, como quem mascara a verdade
    sujando a matéria de sangue
    mantenho-me consciente, mas também tenho as mãos sujas
    o texto leva a minha assinatura

    normalizo a barbárie
    visto o meu melhor terno
    uso a melhor caneta, no melhor pedaço de papel que encontrei
    rabisco e censuro o profundo, rasgo certas camadas e deixo tudo em preto e branco
    arranco os versos importantes da cena
    do resto que sobra faço notícia
    poesia com a morte

  • não sei explicar

    acordei atordoado
    sonhei com você a noite inteira
    com o beijo que não demos
    nem na porta do bar
    nem no espaço escuro de quando fecho os olhos

    a palpitação continua
    fico ofegante
    pensando nos seus grandes olhos
    me desnudando
    seu sorriso abrindo o caminho nesse corredor estreito
    só vejo você nessa multidão
    seu cheiro me acalmando quando me aperta
    quando me pede pra ficar
    até esqueço o que é o não
    as portas se abrem
    todas as possibilidades
    faço altar pra ilusão

    e esse aperto no meu peito
    do que eu deixei de fazer
    do que eu queria
    do que não consegui
    do que não pude
    do déjà-vu na sua voz

    mas se dói
    ainda estou vivo

  • alegria

    preciso pegá-la antes que me escape
    preciso colocá-la em um potinho
    guardá-la no fundo do armário

    imóvel no meio da rua pausando o tempo
    parar na frente do espelho tentando entender o diferente
    parar no portão de casa, com cautela ao dar o primeiro passo
    caso não queira entrar comigo

    se deixar levar pelo vento tocando o meu rosto
    abraçar o frio nas mãos, que contorna os meus dedos quentes
    no meu respiro, controlado mas intenso
    nos meus passos, curtos e precisos
    no sinal, verde para mim

    preciso de uma testemunha
    para que não digam que eu inventei
    preciso de um registro
    para que eu não pense que eu inventei
    este momento raro que me toma crescente
    essa alegria

  • M.2

    dizer sem dizer
    dizer meias palavras
    palavras ambíguas
    não dizer
    o silêncio

    confundir
    deixar tudo dito pelo não dito
    deixar para interpretação
    desmentir, afirmar a desilusão

    ser uma eterna lembrança

  • do pertencimento

    I

    não caibo neste lar apertado
    me encolho por entre os espaços estreitos
    uma caixa na gaveta e um vão no guarda-roupa
    por onde eu olho enxergo itens diversos, dos quais nenhum tem meu nome

    hoje tentei tomar banho
    não encontrei um lugar para apoiar meu cansaço embaixo do chuveiro
    de olhos fechados, tateio procurando um sabonete
    só encontrei xampus que não me servem mais
    saio pingando, demoro para chegar ao quarto
    de repente a casa parecia muito grande
    e ainda assim não me cabia

    II

    de madrugada, depois de muito insistir, fechei os olhos
    me segurei com afinco na ponta da cama, ou o que restara dela
    procurei algum aconchego em uma coberta antiga, restos de outra vida
    tentei caber dentro de mim
    fiz mantra das imagens que se formaram
    fiz uma oração ao tempo
    pedi que não amanhecesse mais um dia
    pedi que mais um dia coubesse na minha noite