Não estou à venda, mas aberta para visitas

Não estou à venda, mas aberta para visitas. Tenho um chão de madeira onde muitos pisaram.

Ainda guardo cinzas de incenso no rodapé e por entre as frestas do taco; indícios de que fui abrigo de sonhos, desejos, do fim e do cansaço. Tenho em mim plantas, abrigando vidas, vindas, lembranças, partidas: dentro e fora do vaso.

Guardo histórias inteiras em diversos formatos: livros, anotações, fotografias. Nos calçados virados para cima — com cadarço, sem, inteiros, desgastados. Em partes sem tinta em cantos escondidos, nas rachaduras do teto: cicatrizes do tempo.

Da vista vejo o mundo acontecer lá fora, aqui dentro também. Vejo reencontros, amizades inteiras se formando, amantes trocando afeto. Vejo nascer o desafeto, pessoas se tornarem completos estranhos. Vejo uma festa passar, vejo a despedida. Vejo alguém sozinho no escuro me olhando — aqui dentro também.

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