Categoria: textos

  • tenho medo de bandos

    tenho medo de bandos,
    me devoram                                     de longe,
    de perto desapareço,
    por dentro (sumo) nas vozes mais altas,
    viro sussurro, suspiro, respiração pelas narinas…
    uma cadeira a menos,
    minha presença é uma tortura para mim mesmo

    um choro pra dentro,
    desprezo o patético,
    me faço de coitado e o poste me acolhe;
    passam por mim como um objeto,
    como parte da cena,
    iluminando minhas costas,
    fazendo sombra nos meus passos,
    enquanto volto para dentro de mim,
    o único lugar que reconheço

  • no teu olhar disperso

    procuro sentido no teu olhar disperso,
    no teu sorriso sem jeito,
    na voz firme,
    no teu rosto pálido,
    sem cheiro, sem tato

    me perco nos frames,
    acompanho o passo dos teus olhos,
    uma tela após a outra,
    uma salva de palmas, um coração, uma carinha triste

    na distância dessas caixas
    brinco de amigos,
    um faz de contas,
    um algo a mais,
    um coração partido

  • desço a rua em silêncio

    vou ao balcão e peço uma cerveja,

    peço uma garrafa d’água,

    peço uma troca de palavras,

    uma gargalhada numa piadinha sem graça

    peço pra ser visto no meio dessa gente descolada,

    que fala de teatro e de filmes franceses,

    escuto spoilers,

    escuto risadas,

    planos para mais tarde…

    desço a rua em silêncio,

    dou as costas pra vida acontecendo bem na minha frente