Autor: gabrielclaudinomarinho@gmail.com

  • descrever algo que não tem nome

    durmo e ainda tenho sono
    como e ainda tenho fome
    fecho os olhos e ainda vejo
    no silêncio ainda escuto tudo

    busco uma palavra não usada pra chamar de minha
    que consiga descrever algo que não tem nome
    algo que todo dia pergunta por mim

  • tocar uma ideia

    há dias em que é mais fácil tocar uma ideia do que uma parede

  • basta sempre uma segunda olhada

    entendo melhor o Chino Moreno quando ele disse: “vi você se transformar em uma mosca”

    basta sempre uma segunda olhada

  • nada soa tão alto

    nada soa tão alto quanto um arrependimento no meio da madrugada

  • saúdo a saudade e a renomeio

    saúdo a saudade e a renomeio
    a chamo de pai, de tia
    a chamo de Antônio e de Frida

    chamo de amor, de amiga
    costeira, horizonte, cometa, ciclos
    tudo menos partida

  • te imaginar fazendo coisas banais e sem importância

    vou te tirar deste pedestal que eu mesmo construí
    te imaginar fazendo coisas banais e sem importância
    observar como faz as coisas à conta-gotas
    aos poucos e com máximo cuidado
    te visualizar caindo e levantando
    escrevendo tudo a lápis
    com medo de errar

  • a podridão

    a podridão
    do acúmulo
    a corrosão do afeto
    a saliva seca
    o pigarro
    o cuspe
    o incerto

    o aperto
    o alívio
    a solidão
    o amontoado
    a bagunça
    o que eu não conheço
    quem eu sou

    o que crio
    o que copio
    os fragmentos
    os inteiros
    os pedaços
    os desejos

    o que eu entendo
    o que finjo
    o que falo
    o que não digo

    no silêncio
    no grito
    o que junto
    o que descarto
    o que apago
    o que resta
    o que sinto

  • escolhi a promessa de um futuro melhor

    uma cartomante me ofereceu cinco perguntas
    escolhi a promessa de um futuro melhor
    paguei em silêncio

    tentei espremer minhas incertezas e desejos
    a caber(em) cinco versos simples e diretos

    não consegui…

  • um zunido

    um zunido se aproxima, a fundo, no ouvido do peito

    as linhas verdes que vão do pulso até a mão tremulam,
    querendo sair

    a respiração também muda: um ar quente, mais difícil de engolir.

    as vistas embaçam; só volto a ver de olhos fechados — uma silhueta preta e branca, marcante, dispersa, febril…

    e então um bicho entra de supetão pela fresta,
    devorando minhas certezas