Textos, fotos, desenhos e o nada

  • basta sempre uma segunda olhada

    entendo melhor o Chino Moreno quando ele disse: “vi você se transformar em uma mosca”

    basta sempre uma segunda olhada

  • nada soa tão alto

    nada soa tão alto quanto um arrependimento no meio da madrugada

  • saúdo a saudade e a renomeio

    saúdo a saudade e a renomeio
    a chamo de pai, de tia
    a chamo de Antônio e de Frida

    chamo de amor, de amiga
    costeira, horizonte, cometa, ciclos
    tudo menos partida

  • te imaginar fazendo coisas banais e sem importância

    vou te tirar deste pedestal que eu mesmo construí
    te imaginar fazendo coisas banais e sem importância
    observar como faz as coisas à conta-gotas
    aos poucos e com máximo cuidado
    te visualizar caindo e levantando
    escrevendo tudo a lápis
    com medo de errar

  • a podridão

    a podridão
    do acúmulo
    a corrosão do afeto
    a saliva seca
    o pigarro
    o cuspe
    o incerto

    o aperto
    o alívio
    a solidão
    o amontoado
    a bagunça
    o que eu não conheço
    quem eu sou

    o que crio
    o que copio
    os fragmentos
    os inteiros
    os pedaços
    os desejos

    o que eu entendo
    o que finjo
    o que falo
    o que não digo

    no silêncio
    no grito
    o que junto
    o que descarto
    o que apago
    o que resta
    o que sinto

  • escolhi a promessa de um futuro melhor

    uma cartomante me ofereceu cinco perguntas
    escolhi a promessa de um futuro melhor
    paguei em silêncio

    tentei espremer minhas incertezas e desejos
    a caber(em) cinco versos simples e diretos

    não consegui…

  • um zunido

    um zunido se aproxima, a fundo, no ouvido do peito

    as linhas verdes que vão do pulso até a mão tremulam,
    querendo sair

    a respiração também muda: um ar quente, mais difícil de engolir.

    as vistas embaçam; só volto a ver de olhos fechados — uma silhueta preta e branca, marcante, dispersa, febril…

    e então um bicho entra de supetão pela fresta,
    devorando minhas certezas

  • não me encaixo nem no desabafo

    não me encaixo nem no desabafo…
    sou muito raso perto de tanto conteúdo falado no choro de gente grande,
    gente que é notada gritando e sussurrando ao microfone…
    ainda não sou gente,

    sou um troço jogado no sofá,
    brigando com os meus lados,
    tentando encontrar uma posição confortável
    entre um acolchoado com tecido macio
    e um buraco com a madeira surgindo, rasgando, invadindo…

    no incômodo, meu peito é pressionado no apoio dos pés descalços,
    onde descanso a cabeça no alto,
    longe…

    escrevendo para ninguém
    às cinco e cinco da manhã,
    completo o show de duas horas,
    competindo com os sons dos pássaros,
    o latido do cachorro ao fundo dissonante
    e o som das rodas riscando o concreto,
    indo e vindo em cada instante,
    quando tento me concentrar,

    no freio brusco dos ônibus da linha noturna
    com assentos vazios,
    no descontentamento nascendo pela fresta da cortina,
    um resquício do mundo
    pedindo para entrar.

  • respiro o pulsar da morte

    jogo um conteúdo embalado em aerossol sobre a vida à parede,

    respiro o pulsar da morte