durmo e ainda tenho sono
como e ainda tenho fome
fecho os olhos e ainda vejo
no silêncio ainda escuto tudo
busco uma palavra não usada pra chamar de minha
que consiga descrever algo que não tem nome
algo que todo dia pergunta por mim
durmo e ainda tenho sono
como e ainda tenho fome
fecho os olhos e ainda vejo
no silêncio ainda escuto tudo
busco uma palavra não usada pra chamar de minha
que consiga descrever algo que não tem nome
algo que todo dia pergunta por mim
entendo melhor o Chino Moreno quando ele disse: “vi você se transformar em uma mosca”
basta sempre uma segunda olhada
saúdo a saudade e a renomeio
a chamo de pai, de tia
a chamo de Antônio e de Frida
chamo de amor, de amiga
costeira, horizonte, cometa, ciclos
tudo menos partida
vou te tirar deste pedestal que eu mesmo construí
te imaginar fazendo coisas banais e sem importância
observar como faz as coisas à conta-gotas
aos poucos e com máximo cuidado
te visualizar caindo e levantando
escrevendo tudo a lápis
com medo de errar
a podridão
do acúmulo
a corrosão do afeto
a saliva seca
o pigarro
o cuspe
o incerto
o aperto
o alívio
a solidão
o amontoado
a bagunça
o que eu não conheço
quem eu sou
o que crio
o que copio
os fragmentos
os inteiros
os pedaços
os desejos
o que eu entendo
o que finjo
o que falo
o que não digo
no silêncio
no grito
o que junto
o que descarto
o que apago
o que resta
o que sinto
uma cartomante me ofereceu cinco perguntas
escolhi a promessa de um futuro melhor
paguei em silêncio
tentei espremer minhas incertezas e desejos
a caber(em) cinco versos simples e diretos
não consegui…
um zunido se aproxima, a fundo, no ouvido do peito
as linhas verdes que vão do pulso até a mão tremulam,
querendo sair
a respiração também muda: um ar quente, mais difícil de engolir.
as vistas embaçam; só volto a ver de olhos fechados — uma silhueta preta e branca, marcante, dispersa, febril…
e então um bicho entra de supetão pela fresta,
devorando minhas certezas