Textos, fotos, desenhos e o nada

  • tenho medo de bandos

    tenho medo de bandos,
    me devoram                                     de longe,
    de perto desapareço,
    por dentro (sumo) nas vozes mais altas,
    viro sussurro, suspiro, respiração pelas narinas…
    uma cadeira a menos,
    minha presença é uma tortura para mim mesmo

    um choro pra dentro,
    desprezo o patético,
    me faço de coitado e o poste me acolhe;
    passam por mim como um objeto,
    como parte da cena,
    iluminando minhas costas,
    fazendo sombra nos meus passos,
    enquanto volto para dentro de mim,
    o único lugar que reconheço

  • no teu olhar disperso

    procuro sentido no teu olhar disperso,
    no teu sorriso sem jeito,
    na voz firme,
    no teu rosto pálido,
    sem cheiro, sem tato

    me perco nos frames,
    acompanho o passo dos teus olhos,
    uma tela após a outra,
    uma salva de palmas, um coração, uma carinha triste

    na distância dessas caixas
    brinco de amigos,
    um faz de contas,
    um algo a mais,
    um coração partido

  • desço a rua em silêncio

    vou ao balcão e peço uma cerveja,

    peço uma garrafa d’água,

    peço uma troca de palavras,

    uma gargalhada numa piadinha sem graça

    peço pra ser visto no meio dessa gente descolada,

    que fala de teatro e de filmes franceses,

    escuto spoilers,

    escuto risadas,

    planos para mais tarde…

    desço a rua em silêncio,

    dou as costas pra vida acontecendo bem na minha frente

  • Alguém

    Alguém

    Sou péssimo para falar de mim, mas sinto que devo o mínimo a você que abriu este site, seja de propósito ou sem querer. Me chamo Gabriel Claudino Marinho, sou paulista, de 94. O que mais eu poderia falar que valeria a pena contar? Talvez meus textos falem por mim, talvez não falem o suficiente. É sempre um amontoado de meias verdades, meias mentiras, um faz de conta que eu crio na minha cabeça (a alegria, a dor, o que tenho, o que falta).

    Comecei a escrever em 2015, depois de uma longa crise de agorafobia, ansiedade e outras merdas dessas trazidas pelo sistema, que ainda fazem questão de nos fazer sentir como se a culpa fosse nossa. Desde então, nunca parei. Até um tempo atrás, escrever só para mim era o suficiente, mas passei a viver em solidão com as palavras. Comecei a sentir necessidade de buscar um lugar para me encaixar nesse amontoado de sentimentos que habitam dentro de mim; expressar-me apenas não era o suficiente. Então, o que busco aqui é te encontrar. Sim, você que está lendo isso: se você se identificar com algo que leu aqui, talvez eu me sinta menos sozinho hoje.

    Longe de mim querer dar tamanha importância para o que escrevo ou não. É mais uma questão de saber que não sou só eu que sinto certas coisas, que calo certas palavras; é dar um pouco de sentido, de significado para a dor.

    Desnudar-me em palavras aqui é muito difícil para mim. Talvez eu me arrependa em poucas horas de escrever isto e de ter criado este site. É quase um site temporário; pode ter o ciclo de vida tão pequeno quanto a atenção de quem abre uma página de escrita e dedica seu tempo para ler sobre os pensamentos, desejos e frustrações de um estranho. Mas só o tempo vai dizer…