saúdo a saudade e a renomeio
a chamo de pai, de tia
a chamo de Antônio e de Frida
chamo de amor, de amiga
costeira, horizonte, cometa, ciclos
tudo menos partida
saúdo a saudade e a renomeio
a chamo de pai, de tia
a chamo de Antônio e de Frida
chamo de amor, de amiga
costeira, horizonte, cometa, ciclos
tudo menos partida
vou te tirar deste pedestal que eu mesmo construí
te imaginar fazendo coisas banais e sem importância
observar como faz as coisas à conta-gotas
aos poucos e com máximo cuidado
te visualizar caindo e levantando
escrevendo tudo a lápis
com medo de errar
a podridão
do acúmulo
a corrosão do afeto
a saliva seca
o pigarro
o cuspe
o incerto
o aperto
o alívio
a solidão
o amontoado
a bagunça
o que eu não conheço
quem eu sou
o que crio
o que copio
os fragmentos
os inteiros
os pedaços
os desejos
o que eu entendo
o que finjo
o que falo
o que não digo
no silêncio
no grito
o que junto
o que descarto
o que apago
o que resta
o que sinto
uma cartomante me ofereceu cinco perguntas
escolhi a promessa de um futuro melhor
paguei em silêncio
tentei espremer minhas incertezas e desejos
a caber(em) cinco versos simples e diretos
não consegui…
um zunido se aproxima, a fundo, no ouvido do peito
as linhas verdes que vão do pulso até a mão tremulam,
querendo sair
a respiração também muda: um ar quente, mais difícil de engolir.
as vistas embaçam; só volto a ver de olhos fechados — uma silhueta preta e branca, marcante, dispersa, febril…
e então um bicho entra de supetão pela fresta,
devorando minhas certezas
não me encaixo nem no desabafo…
sou muito raso perto de tanto conteúdo falado no choro de gente grande,
gente que é notada gritando e sussurrando ao microfone…
ainda não sou gente,
sou um troço jogado no sofá,
brigando com os meus lados,
tentando encontrar uma posição confortável
entre um acolchoado com tecido macio
e um buraco com a madeira surgindo, rasgando, invadindo…
no incômodo, meu peito é pressionado no apoio dos pés descalços,
onde descanso a cabeça no alto,
longe…
escrevendo para ninguém
às cinco e cinco da manhã,
completo o show de duas horas,
competindo com os sons dos pássaros,
o latido do cachorro ao fundo dissonante
e o som das rodas riscando o concreto,
indo e vindo em cada instante,
quando tento me concentrar,
no freio brusco dos ônibus da linha noturna
com assentos vazios,
no descontentamento nascendo pela fresta da cortina,
um resquício do mundo
pedindo para entrar.
jogo um conteúdo embalado em aerossol sobre a vida à parede,
respiro o pulsar da morte
tenho medo de bandos,
me devoram de longe,
de perto desapareço,
por dentro (sumo) nas vozes mais altas,
viro sussurro, suspiro, respiração pelas narinas…
uma cadeira a menos,
minha presença é uma tortura para mim mesmo
um choro pra dentro,
desprezo o patético,
me faço de coitado e o poste me acolhe;
passam por mim como um objeto,
como parte da cena,
iluminando minhas costas,
fazendo sombra nos meus passos,
enquanto volto para dentro de mim,
o único lugar que reconheço
procuro sentido no teu olhar disperso,
no teu sorriso sem jeito,
na voz firme,
no teu rosto pálido,
sem cheiro, sem tato
me perco nos frames,
acompanho o passo dos teus olhos,
uma tela após a outra,
uma salva de palmas, um coração, uma carinha triste
na distância dessas caixas
brinco de amigos,
um faz de contas,
um algo a mais,
um coração partido
vou ao balcão e peço uma cerveja,
peço uma garrafa d’água,
peço uma troca de palavras,
uma gargalhada numa piadinha sem graça
peço pra ser visto no meio dessa gente descolada,
que fala de teatro e de filmes franceses,
escuto spoilers,
escuto risadas,
planos para mais tarde…
desço a rua em silêncio,
dou as costas pra vida acontecendo bem na minha frente